Marisa Costa

Sonhar é viver!

Textos


 

 

......no jardim das frestas douradas...

 

O chegar era cambaleante — os pés ainda cortados, os olhos nublados de lembrança.

Mas ao atravessar o limiar do vale, o mundo mudou de pele.

 

Um dourado líquido escorria entre as folhas. Não era sol — era algo mais íntimo,

como se o próprio tempo derramasse luz por entre as frestas do que ainda pode nascer.

 

Ali, a natureza não apenas existia —  ela sussurrava.

As árvores tinham cascas de cobre vivo, 

e suas folhas, ao vento, riam em sinos verdes.

Borboletas de vidro faiscavam no ar, 

e musgos cintilavam como constelações rasteiras.

 

Ela, parou no centro do jardim. Respirou. 

 

E pela primeira vez, desde a queda, o ar entrou limpo, doce como mel silvestre colhido em silêncio.

 

Ouviu o som das pétalas abrindo. Viu uma flor nascer no instante exato do seu suspiro.

Sentiu-se parte de algo que não exigia esforço — bastava ser.

Com as cicatrizes, com os silêncios, com a beleza imperfeita do que sobreviveu.

 

Andou entre as flores como quem pisa um segredo. O chão era macio,

e os espinhos não a feriam mais — eles recuavam diante da doçura com que ela tocava o mundo.

 

As cores dançavam sob seus olhos: havia tons que ela nunca tinha nomeado.

Azuis de esperança sussurrada. Rosas que exalavam memória. Verdes que cantavam recomeço.

 

Nesse jardim, o tempo era redondo. O passado não doía. O futuro não pesava. 

Só o agora existia

e nele, ela era inteira o suficiente para florescer.

 

Ali, não chorou. Mas uma lágrima dourada escorreu, sem dor, como quem diz: "estou viva, e ainda posso me encantar."

 

E enquanto o vento penteava seus cabelos com dedos de luz, sentiu algo crescer dentro do peito:

não era coragem, era fé.

 

E seguiu adiante,

levando pétalas nos bolsos

e o perfume do possível colado à pele.

 

 

 

 

 

Marisa Costa
Enviado por Marisa Costa em 24/07/2025
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