

......no jardim das frestas douradas...
O chegar era cambaleante — os pés ainda cortados, os olhos nublados de lembrança. Mas ao atravessar o limiar do vale, o mundo mudou de pele.
Um dourado líquido escorria entre as folhas. Não era sol — era algo mais íntimo, como se o próprio tempo derramasse luz por entre as frestas do que ainda pode nascer.
Ali, a natureza não apenas existia — ela sussurrava. As árvores tinham cascas de cobre vivo, e suas folhas, ao vento, riam em sinos verdes. Borboletas de vidro faiscavam no ar, e musgos cintilavam como constelações rasteiras.
Ela, parou no centro do jardim. Respirou.
E pela primeira vez, desde a queda, o ar entrou limpo, doce como mel silvestre colhido em silêncio.
Ouviu o som das pétalas abrindo. Viu uma flor nascer no instante exato do seu suspiro. Sentiu-se parte de algo que não exigia esforço — bastava ser. Com as cicatrizes, com os silêncios, com a beleza imperfeita do que sobreviveu.
Andou entre as flores como quem pisa um segredo. O chão era macio, e os espinhos não a feriam mais — eles recuavam diante da doçura com que ela tocava o mundo.
As cores dançavam sob seus olhos: havia tons que ela nunca tinha nomeado. Azuis de esperança sussurrada. Rosas que exalavam memória. Verdes que cantavam recomeço.
Nesse jardim, o tempo era redondo. O passado não doía. O futuro não pesava. Só o agora existia e nele, ela era inteira o suficiente para florescer.
Ali, não chorou. Mas uma lágrima dourada escorreu, sem dor, como quem diz: "estou viva, e ainda posso me encantar."
E enquanto o vento penteava seus cabelos com dedos de luz, sentiu algo crescer dentro do peito: não era coragem, era fé.
E seguiu adiante, levando pétalas nos bolsos e o perfume do possível colado à pele.
Marisa Costa
Enviado por Marisa Costa em 24/07/2025
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